A solitude do rio deixa-me absorta em pensamentos,
resvalo para acontecimentos labirinticos e sem sentido.
Anseio a paz perdida no momento em que saíste e não retornaste a mim.
Perdeu-se o nós e a bem aventurança dum futuro promissor.
A flor que plantaste naquela manhã de sol ainda vive,
assim como o que semeaste em mim.
Invade-me todos os dias em que acordo e tento respirar.
Posso achar que estás bem mas sem mim nunca estarás bem.
Somos do mesmo cunho, hora e imagem.
Somos do mesmo som, da mesma raiz.
A camisa permanece pendurada no roupeiro, branca incólume como tudo o que víamos.
Éramos a lucidez em estado bruto mas duma suavidade intemporal.
Sempre que venho aqui lembro-me de guardares a minha mão dentro das tuas e sussurrares entre um beijo mais que pedido que me amavas e irias estar comigo sempre.
Não foi a morte tão pouco que te levou, se tivesse sido talvez eu me tivesse resignado.
Foi a tua vontade que assim te levou numa manhã que se tornou noite para mim.
Nem olhaste para trás quando te perguntei como seria o futuro.
Apenas a frase "eu contigo...não tenho qualquer futuro!" e saíste a pé. Deixando-me a mim e a um castelo de cartas encardido...agora plenamente desfeito.
Nesse dia sai de casa em silencio e em ceguez, sai de carro até ao farol que tanta vez foi testemunha de todas as promessas guardadas e muito ansiadas.
Cumprimentei o guarda que não guardou nenhuma reserva em demonstrar-me que achava estranho eu estar ali sozinha...
Entrei apressada e cheia de frio, não só porque a partir do momento em que tudo se quebrou tornei-me gelo como estava muito vento. Notei que não estava vestida adquedamente para aquele dia. Mas a dormência dominou-me.
Ansiava uma dor bem maior que aquela, que me esventrasse a alma e me fizesse morrer ali naquele chão. Desejava uma queda rápida dentro dos mil abismos que se fomentaram em mim. Nunca me sentira tão fraca e quebrada. Nem sei precisar o tempo que ali permaneci encostada à muralha a tentar ter coragem de me atirar. Perdi-me nos segundos, de toda a nossa vida. Mas o que mais me magoou foi saber que fosse a que horas fosse quando eu retornasse tu não irias lá estar.
Voltei porque a covardia tirou-me a opção mais indolor. Voltei tão devagar que demorei horas a chegar.
Desliguei a ignição e deixei-me ficar... Encostei a cabeça ao volante e deixei-me ficar no vazio, não sentia o frio da noite, absolutamente nada.
Quando meti a chave na porta já era nascer do sol. Lembro-me nitidamente de não pensar em nada, de me sentir a andar no vazio e sem qualquer sentimento que não fosse dó por mim mesma.
Entrei agora no meu quarto despojei-me da roupa gelada e deitei-me sobre a cama em posição fetal e não me recordo de grande coisa apartir dali...Perdi a noção das horas e até dos dias. Deixei de ser eu, eu sei que naquela altura soube que tudo aquilo me tinha tornado numa pessoa que até eu desconhecia, e que a desconstrução da minha vida seria algo que eu levaria muito tempo a suportar, encarar tão pouco. Não lutei contra a dor, não lutei contra o desespero que me alimentou naqueles dias. Apenas respirei como dificuldade perdendo para sempre o nosso nós. (e)O meu Eu.