(Monte Clérigo - Costa Vicentina
Foto de Pedro Noel da Luz)
O nós havia perecido mas eu continuava a respirar mesmo sem oxigénio, sentia-me completamente cheia de sequelas e mortificada.
Durante aqueles dias não houve ponta de raio de sol que entrasse em minha casa, agora era só minha...
Não houve ar puro que entrasse, ali exorcizei sem escolher os meus fantasmas. Desapareci, enlouqueci e não, não renasci porque a morte ainda durava.
Não tive outro remédio senão abrir a torneira da banheira enche-la de água bem quente e submergir, precisa lavar-me do tanto que tinha lutado para não sucumbir. A imagem no espelho não era a minha, era de uma completa estranha mas eu teria que me habituar à sua expressão, esta agora era eu. Limpei-me e vesti uns jeans e uma sweat e sentei-me na beira da cama ás escuras apesar de ser meio-dia e pressentir o sol lá fora, apesar de estarmos em Novembro. Procurei mesmo assim umas meias e calcei uns ténis, voltei-me a sentar...eu não tinha para onde ir, nem vontade de o fazer. Mergulhei os olhos nas mãos e travei as lágrimas e inspirei numa ténue vontade de alguma coisa que não aquilo. Procurei uma mochila, e lá pus algumas roupas sem ordem alguma e preparei um necessaire, vesti um casaco quente.
E, finalmente ao fim daqueles dias abri a porta de casa, e fui praticamente ferida pela luz solar. Confesso que senti um baque, uma contrariedade em relação aquela luz toda incidida em mim, não a desejava. Porque talvez desejasse continuar na escuridão em que me deixaste.Tu...
Mas o vento esse cortou-me a camisola e atingiu-me a pele, o frio dava-me conforto, sentia-me em sintonia com o ambiente.
Meti-me no carro sem destino até que retornei à infância e aquela praia que tantas vezes foi berço de alegria e gargalhadas. Peguei no telemóvel e falei com a minha prima que sem muitas perguntas cedeu-me a casa que a mãe dela lá tem. Liguei a ignição e enfiei o primeiro CD que me veio á mão no leitor. Queria encher a minha cabeça de sons preencher-me de alguma forma. Ligar-me a alguma energia. Os quilómetros fizeram-se depressa demais. Assim que entrei na estrada que dá acesso à praia e ao casario sorri mentalmente fisicamente era impossível fazê-lo. Senti uma espécie de conforto à minha ansiedade mórbida dos últimos dias. Fiz a descida devagar e apreciei cada azul daquele mar, casa som da rebentação. Quando cheguei cá em baixo virei à segunda esquerda e lá estava a casa, igual ao que era antes, de facto o tempo por ali não passou. Nem uma marca de erosão. Apenas a calma apenas o cheiro a maresia e o constante frio que eu desconfiava que já fizesse parte de mim...
Aqui neste lugar estava só eu, eu nunca te trouxe cá, portanto aqui nós não fomos felizes aqui talvez eu não me achasse na situação de te encontrar em cada lembrança, aqui tu não existias e nem respiraste. Deste tempo tu não fizeste parte. Foi como retornar ao eu de outrora que eu sabia morto. Procurei a chave abria-a devagar...tão devagar que o vento acabou por abri-la de par em par. Tudo igual a dantes, tudo nos mesmos lugares, as cores meio antigas o chão tão caracteristico do passado vivido. A casa encontrava-se limpa e arejada que sorte a minha, talvez tivesse sido usada dias antes. Pousei a mochila e acendi a lareira porque o frio tinha-se elevado e eu já não sentia as extremidades, tal como não sentia o meu próprio coração a bater. Sentei-me no sofá enrrolada sobre mim mesma. Não me conseguia mexer e o turbilhão aproximava-se de novo, ele devorava-me sempre que a noite ameaçava. Nem resisti...mergulhei em lágrimas como foi hábito aqueles dias. Mentalmente declamava para mim algo que me escreveste e era assim em uma espécie de oração que eu adormecia:
Mulher minha
paixão exuberante
olhos de mel que queimam
e me torturam a alma.
Amor meu
que me encontrou
na deriva da vida anónima
mais um entre tantos.
Eu fui teu
doce Ser
que te tornaste minha.
Arrebatas-me todos os dias
e todos as noites eu morro
nos teus beijos
e nas tuas mãos.
Serena, colapso dos meus dias.
Dama, Senhora
do meu mundo
do meu reino
do meu Ser.
Teu, teu imensamente Teu.
paixão exuberante
olhos de mel que queimam
e me torturam a alma.
Amor meu
que me encontrou
na deriva da vida anónima
mais um entre tantos.
Eu fui teu
doce Ser
que te tornaste minha.
Arrebatas-me todos os dias
e todos as noites eu morro
nos teus beijos
e nas tuas mãos.
Serena, colapso dos meus dias.
Dama, Senhora
do meu mundo
do meu reino
do meu Ser.
Teu, teu imensamente Teu.
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meu doce amanhecer.
meu doce amanhecer.

















