
As manhãs eram sempre caóticas, cansativas e ensonadas. Custava-lhe imenso levantar-se de manhã porque tinha insónias e quando não as tinha o seu cérebro era um pequeno relógio que não parava nunca. Ou com os seu próprios esquemas mentais do dia que vinha ou do que se ia, ou com algum alheio.Quando o telemovél tocava para mais um dia era como se o seu corpo pesasse o dobro, como se tudo no seu dia lhe aparecesse em dobro sabendo que provavelmente seria em triplo.
Entre despertar uns, gritar a outros Luísa arranjava tempo para si, nunca saia de casa sem uma aparência minimamente aceitável, nos últimos tempos tinha sido acometida pela ânsia de parecer mais bonita mais jovem. Irritavam-lhe de sobremaneira as olheiras da tez morena e do cansaço crónico que desenvolvera. Disfarçava-as com um corrector e nos lábios um lipgloss. Entrava no carro, e ao longo de trajecto o caos ia desaparecendo entre beijos e "até logos".Quando finalmente se via sozinha no seu carro e no seu caminho, aumentava o som da música e imaginava uma outra vida, uma outra escolha. Ela tinha direito a esse escape mental, tinha direito a essa ponta de liberdade que durava apenas dez minutos, mas que lhe devolviam um brilho acutilante ao olhar (sempre e apesar de tudo): tão sedutor.
Pearl


















