
Guilherme viu-se naquela situação surreal em plena rua praticamente nu, porque é que não ficou em casa, porque é que acha sempre que precisa de aventura quando ela não está, quando todos os momentos de máxima aventura foram com ela. De repente sentiu-se um “merdas”, um homem infantil que age pelas costas, que não sabendo muito bem o que procura anda em busca de algo. Perguntou envergonhadamente as horas a alguém e ao dar-se conta que a sua mulher estaria perto de estar em casa, Guilherme deixou de ter pressa...simplesmente parou de correr contra ele mesmo e decidiu ir para casa com a calma dos guerreiros, porque hoje pela primeira vez em muito tempo decidiu lutar pela sua vida!
Calmamente tocou à sua própria campainha afinal ficara sem nada...nesse instante os olhos da mulher do bar encheram-lhe a mente, apercebendo-se deles tristes…só agora percebeu a perdição daquela mulher, a profunda amargura de uma ferida recentemente aberta! Que figura a dele…
A porta abriu-se assim como os olhos da sua mulher, lancinantes…inquisidores, sabia que tinha que encher o peito de ar para o que aí vinha..."Esta minha figura deve-se ao facto de ter sido assaltado numa zona menos recomendável, o que lá fazia? procurava sexo fácil, se o encontrei? Não, nunca encontro, normalmente volto para casa um farrapo devido aos whiskys velhos e sem tostão porque acho que se lhes pagar copos terei atenção"
"Não suporto esta vida...amo-te mas não consigo mais. Perceber que nos afundamos em tudo e deixamos morrer a cumplicidade… os planos de futuro, já não te vejo mais, já não sei como foi o teu dia, como andas. Perdi-me de ti, e tento-te encontrar em todas as esquinas que passo. Quero-te de volta, quero-te como és hoje mas com vontade de estares comigo, não quero tentativas de seres o que já foste, quero o real de ti com o melhor e o pior, não essa versão indiferente e distante que adoptaste nos últimos tempos...Nunca tive nada de especial com ninguém, tentei mas não consegui, elas não são tu, elas não têm o teu cheiro...ar, doçura. Vou parar de procurar porque eu já encontrei quem quero... diz-me tu se já encontraste o que procuras!?"
Helena em casa…furiosa, inquieta vingava-se como podia ou seja empilhando tudo inclusive sonhos numa caixa…sentindo-se ridícula com todo aquele enxoval tardio. Olhou para um quadro que haviam adquirido em Londres num leilão, o quadro ostentava uma paisagem de uma casa de campo, tinham-no adquirido porque representava um sonho, Helena percebia agora que era um sonho alimentado só por ela. Lembrou-se das peripécias daquela viagem de “negócios”, a sorte de terem conseguido um voo tardio na EasyJet, Helena recorda todos os surpreendentes fins-de-semana, assim como todas as horas de almoço em que não comeram de facto! De
forma masoquista ainda relembra o complexo de culpa de cada vez que estavam juntos, percebeu a forma como isso tinha envenenado a sua vida e como tudo lhe parecia impossível agora que acabou!
Tudo ali se amontoava diante de si, sem misericórdia…
Tudo fora descoberto pela esposa de Ricardo de forma estudada: a visualização de uma sms, destapou a história deles de forma vil e baixa. Ela teria preferido que Ricardo tivesse exposto a situação deles à sua mulher de forma adulta mas ele fora covarde, deixando o romance deles a inevitabilidade do acaso. Dois anos da sua vida que deu a Ricardo, dois anos que tiveram como combustível a hipótese ténue de ficarem juntos, como pode ter sido tão estúpida!
Ricardo ignora-a durante dois dias, até ao dia que ela o confrontou no estacionamento do emprego, ele diz-lhe de forma amarga e fria…
-Desculpa Helena não nos podemos ver, a ultima sms que me enviaste de forma irresponsável foi “apanhada” pela minha esposa, deu-me cabo da vida, não estou para isto, sou casado Helena não sozinho como tu…tenho que ir, cuida-te!
Helena ficou…destroçada, ficou no estacionamento durante tempo indeterminado, soluçando, avaliando se tinha tido culpa numa história sem réus, dali conduziu sem destino ou coragem, estacionou à frente do primeiro bar que encontrou e entrou. Pediu o wisky preferido de Ricardo “Logan 12 anos por favor sem gelo…” e ali esteve por mais 2h a olhar para o copo, quantas vezes beijou Ricardo entre um gole de wisky e outro. Não chegou a provar da bebida, Helena não bebia…saiu tarde do bar, chegou a casa e enfiou-se no duche…
Ricardo tem uma relação próxima com mãe, fez dele um homem sensível, atento e fascinado pelo o universo feminino, facto que levou a ser director duma revista feminina muito em voga…Perdeu o pai muito cedo por isso a mãe foi a heroína da sua vida, a falta de uma família completa desenvolveu nele uma carência que foi preenchida quando casou e teve o primeiro filho, sentia-se o homem mais realizado do mundo…
Nessa manhã a sua mãe só lhe disse calmamente como era sua característica:
"Não queiras ser tu o primeiro a ter uma vida planeada, a vida não se planeia a vida vive-se de modo tranquilo mas aguardando sempre a mudança, somos seres voláteis que não se acalmam com o que têm!...errantes ...que tentam fazer bem, tantas vezes sem sucesso!”Ricardo chorou em silêncio com a mãe, mostrando-lhe que não fora leviano que nunca tencionou apaixonar-se mas que aconteceu e agora perdeu tudo inclusive Helena…o sopro que a vida tinha lhe dado com generosidade, simplesmente fora desprezível com ela. A mãe de Ricardo continuou “…pára um pouco antes de mais, dá-te tempo a ti mesmo, avalia o que pode ser salvo, se puderes salvar o respeito e amizade para com a tua mulher, faz isso. Se puderes salvar a condição de vida da tua família, faz isso…mas antes de mais salva-te a ti mesmo dessa espiral que te envolveste!”
Ricardo entrou no duche e deixou que a água quente lhe limpasse as lágrimas, deixando que a lucidez sobressaísse neste momento de dor na sua vida e de várias pessoas, a culpa que sentia seria sua para sempre, mas tencionava salvar o que fosse possível!
Helena corria pela manhã…sentia-se melhor, passaram-se 15 dias desde daquela noite, 15 dias que não mais vira Ricardo, lentamente sentia-se a voltar a si!
Corria de forma rápida e segura, parou de modo brusco ao encarar Ricardo…ali!
Ricardo saiu de casa de modo brusco, corajoso…tinha que falar com Helena, nessa noite leu e releu sms’s, leu e releu na sua mente as imagens de paixão que teve com Helena…o gosto da pele morena, as olheiras que ela detestava mas que lhe davam um ar de mulher, a pele que empadelicia da parte da manhã. Das mão geladas que o tocavam de forma sublime, dos momentos de entrega deles mesmos um ao outro…sabia que o que viveu com Helena era único. Helena era linda, segura…recordou-se da primeira vez que ela lá tinha ido a empresa…alta, formal que contrastava com o desalinho do cabelo encaracolado…
Ao deparar-se com Helena no parque…não foi proferida palavra, ela estava ali ao alcance dele…Ricardo num gesto tão familiar a Helena, retira-lhe uma mecha de cabelo da face e iniciam a sua caminhada...nesse instante na sua direcção contrária aparece o parvalhão do bar (reconhecem-se) com uma mulher, Helena apercebe-se da tranquilidade que eles imanam, dos sorrisos cúmplices e os gesto entusiastas…desejando isso mesmo para ela, dá definitivamente a sua mão fria que Ricardo recebe de forma desejada…
Pearl